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Equipamentos Recondicionados: Portugal Hesita Entre Oportunidade e Desconfiança
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Equipamentos Recondicionados: Portugal Hesita Entre Oportunidade e Desconfiança

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Redação ClickNews
· 14 de May de 2026 · 4 min de leitura · 0 visualizações

Estudo revela que apenas 38% dos portugueses já comprou um recondicionado. A procura cresce, mas a falta de confiança mantém o mercado afastado do seu verdadeiro potencial.

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O mercado português de equipamentos recondicionados encontra-se num ponto de viragem. Enquanto a intenção de compra entre os consumidores aumenta consistentemente, a desconfiança permanece como o principal obstáculo ao crescimento de um setor que poderia representar uma solução económica significativa para milhões de famílias. Três estudos independentes, publicados entre 2025 e 2026, pintam um quadro revelador: Portugal está pronto para o recondicionado, mas precisa de ser convencido a confiar.

Um inquérito da DECO PROteste divulgado em janeiro de 2026 apresenta números que não mentem. Apenas 38% dos portugueses afirma ter adquirido equipamento recondicionado, uma percentagem que contrasta fortemente com o interesse manifestado em questões sobre disponibilidade para comprar produtos deste tipo. Este gap entre intenção e ação é o verdadeiro problema a resolver. O mesmo estudo reforça que os portugueses reconhecem o valor económico dos recondicionados, particularmente numa altura em que a inflação continua a pressionar os orçamentos das famílias. No entanto, preocupações com qualidade, durabilidade e garantia travam decisões de compra.

O Observador Cetelem complementa este diagnóstico com análise aprofundada do comportamento do consumidor português. Os dados sugerem que a classe média e as famílias com rendimentos moderados seriam os grandes beneficiários de uma maior penetração do mercado de recondicionados. Para estas franjas da população, a diferença entre comprar novo e adquirir um equipamento recondicionado com garantia adequada pode significar a oportunidade de acesso a tecnologia de qualidade. Smartphones, computadores portáteis e tablets recondicionados apresentam potencial de mercado não explorado em Portugal, especialmente considerando que muitos destes equipamentos são originários de devoluções voluntárias ou upgrades tecnológicos de utilizadores em economias mais desenvolvidas.

A investigação da Fraunhofer Austria alarga a perspetiva, posicionando Portugal no contexto europeu. O setor do recondicionado está em crescimento em toda a Europa Ocidental, impulsionado por preocupações ambientais e por um novo paradigma de consumo responsável. Portugal, porém, fica significativamente atrás de países como Alemanha, França e Reino Unido em termos de volume de transações neste segmento. Esta discrepância não resulta de falta de interesse, mas sim de um problema estrutural: faltam atores de mercado com credibilidade suficiente para tranquilizar consumidores desconfiados.

A iServices surge como exemplo de como esta confiança pode ser construída. A empresa portuguesa respondeu ao desafio com uma abordagem tripla: garantias concretas, processos transparentes e escala operacional. Em vez de simplesmente vender equipamentos recondicionados, a iServices investiu em certificação rigorosa de qualidade, garantias extensas que rivalizam com equipamento novo e um processo de aquisição que permite aos clientes compreender exatamente o que estão a comprar. Esta estratégia transformou a desconfiança no seu oposto, criando um modelo de negócio viável que simultaneamente oferece valor ao consumidor e contribui para a economia circular. A empresa demonstra que em Portugal, como noutros mercados, a confiança pode ser vendida através de transparência e comprometimento com a qualidade.

Os reflexos desta hesitação estendem-se além do mercado português. Em Moçambique, Angola e Cabo Verde, onde o poder de compra é significativamente mais reduzido, a falta de mercados estruturados de recondicionados representa um problema ainda mais grave. Milhões de africanos poderiam beneficiar de acesso a tecnologia através de equipamentos recondicionados certificados, mas a inexistência de cadeias de distribuição fiáveis mantém-os excluídos. Brasil enfrenta desafios semelhantes, apesar da dimensão do mercado. Esta é uma oportunidade perdida não apenas para empresas, mas para a inclusão digital em toda a lusofonia.

Para a ClickNews, este cenário representa um ponto crítico para o desenvolvimento do mercado português de tecnologia e consumo responsável. Os números da DECO PROteste, do Observador Cetelem e da Fraunhofer Austria revelam que a batalha pelo mercado do recondicionado não será ganha através de preços mais baixos, mas sim através de confiança estruturada e profissionalismo. Empresas como a iServices abrem o caminho, mas o mercado necessita de mais atores empenhados neste modelo. Para Portugal cumprir o seu potencial em economia circular e inclusão digital, a indústria de recondicionados deve evoluir de um negócio marginal para um setor maduro e confiável. Os consumidores já estão prontos; agora falta apenas eliminar as barreiras que os separam das oportunidades.
Redação ClickNews

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