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Guterres alerta: a IA não pode ficar nas mãos de poucos
Tecnologia

Guterres alerta: a IA não pode ficar nas mãos de poucos

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Nalina Seidi
· 28 de July de 2026 · 5 min de leitura · 20 visualizações

O secretário-geral da ONU defende um modelo global de governação da inteligência artificial que evite o monopólio tecnológico. Uma visão crítica sobre os riscos de concentração de poder no ecossistema digital.

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António Guterres voltou a colocar a inteligência artificial no centro do debate geopolítico internacional, reafirmando a necessidade de uma governação democratizada desta tecnologia transformadora. Numa intervenção que ecoa preocupações crescentes sobre o futuro digital do planeta, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas argumenta que não é aceitável permitir que um número reduzido de países ou empresas tecnológicas controlem o desenvolvimento e a implementação da IA. A posição é particularmente relevante num momento em que as potências globais se confrontam com questões fundamentais sobre soberania digital e equidade tecnológica.

O discurso de Guterres toca num ponto nevrálgico do debate contemporâneo: a IA representa simultaneamente uma das maiores oportunidades e um dos maiores riscos do século XXI. Por um lado, esta tecnologia promete revolucionar setores inteiros, da saúde à educação, da agricultura à administração pública, potencialmente levantando milhões de pessoas da pobreza e resolvendo problemas complexos que afligem a humanidade. Por outro, o seu desenvolvimento descontrolado ou monopolizado representa uma ameaça para a democracia, a privacidade, a segurança e até para a própria sobrevivência humana. Os riscos variam desde o enviesamento algorítmico que perpetua discriminações, até cenários mais extremos de sistemas autónomos prejudiciais ou armas inteligentes fora de controlo.

Para os países lusófonos, esta questão assume dimensões adicionais de complexidade. Portugal, como membro europeu com responsabilidades digitais crescentes, vê-se confrontado com a necessidade de harmonizar posições dentro da União Europeia enquanto mantém pontes com os seus parceiros históricos. Os PALOP e o Brasil, por sua vez, enfrentam o desafio de não ficarem relegados a meros consumidores de tecnologia desenvolvida noutras geografias, correndo o risco de uma colonização digital onde as decisões sobre sistemas que afetam as suas populações são tomadas a milhares de quilómetros de distância. A concentração de poder tecnológico reproduziria, em formato digital, as assimetrias históricas que caracterizaram as relações internacionais do século anterior.

A posição de Guterres alinha-se com crescentes apelos internacionais por um modelo de governação multilatoral da IA, que contraste com a atual realidade onde meia dúzia de grandes empresas tecnológicas ocidentais e chinesas dominam o panorama. Estas corporações, ainda que extraordinariamente inovadoras, respondem primariamente aos seus acionistas e aos mercados onde operam, não necessariamente aos interesses coletivos da humanidade. Sem quadros regulatórios adequados e sem a voz dos países em desenvolvimento, há o risco real de que a IA seja implementada de formas que aprofundem desigualdades, reforcem poderes consolidados e marginalizem vozes já historicamente silenciadas.

O desafio prático de implementar esta visão, porém, é imenso. Como desenhar mecanismos de governação global que sejam verdadeiramente representativos e eficazes? Como equilibrar a inovação com a regulação, sabendo que a tecnologia avança muito mais rapidamente que a legislação? A União Europeia iniciou uma aproximação através do AI Act, estabelecendo critérios de risco e obrigações de transparência para desenvolvedores. Contudo, esta abordagem, apesar de progressista, reflete principalmente interesses e valores europeus, correndo o risco de ser imposta como standard global sem verdadeiro consenso internacional. Os PALOP têm particular interesse em garantir que qualquer framework global de governação da IA não seja apenas imposto de cima para baixo, mas que incorpore perspetivas e necessidades específicas dos mercados lusófonos, onde questões como a inclusão digital, a soberania de dados e a capacitação local são críticas.

O secretário-geral também salienta implicitamente a urgência de construir capacidades tecnológicas nos países menos avançados, evitando que estes fiquem eternamente dependentes de tecnologia importada. Há espaço para iniciativas de transfer de conhecimento, de investimento em educação em IA nos países da CPLP, e de apoio a startups locais que possam desenvolver soluções inovadoras adaptadas às realidades específicas das suas comunidades. O Brasil, com o seu ecossistema tecnológico robusto, poderia ser um parceiro crucial neste esforço, assim como Portugal, pela sua posição europeia e ligações lusófonas.

Para a ClickNews, a intervenção de Guterres marca um ponto de viragem importante no diálogo global sobre a inteligência artificial. Não é suficiente celebrar a inovação tecnológica sem questionar quem a controla e em benefício de quem. Os mercados lusófonos têm tudo a ganhar com uma governação internacional da IA que seja verdadeiramente inclusiva, que proteja direitos fundamentais e que crie oportunidades equitativas para participação e desenvolvimento. O alternativa — aceitar silenciosamente um mundo onde a tecnologia do futuro é ditada por alguns — é inaceitável para qualquer nação que aspire a real autonomia no século XXI.
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Nalina Seidi

Autor do Artigo

Jornalista

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