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Portugal avança na inovação, mas empresas ainda investem pouco em I&D
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Portugal avança na inovação, mas empresas ainda investem pouco em I&D

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Nalina Seidi
· 10 de July de 2026 · 5 min de leitura · 50 visualizações

Relatório europeu reconhece esforço público português em investigação, mas identifica défice crítico no investimento privado que compromete competitividade.

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Portugal continua num patamar intermédio no panorama inovador europeu, apesar dos progressos registados nos últimos anos. Esta é a principal conclusão de um relatório recente que analisa o desempenho dos Estados-membros da União Europeia em matéria de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Embora Bruxelas tenha elogiado o reforço do apoio público à investigação e ao desenvolvimento empresarial, o documento identifica uma fragilidade estrutural que persiste: o investimento privado em inovação permanece aquém do desejável, refletindo-se numa despesa relativamente baixa por trabalhador nas empresas portuguesas.

Este diagnóstico revela um paradoxo interessante na economia portuguesa. Enquanto a administração pública e as instituições de ensino superior têm aumentado significativamente os recursos dedicados à investigação científica e à transferência de tecnologia para o tecido empresarial, o setor privado não acompanha este ritmo com investimentos proporcionais. Esta desconexão entre o esforço público e o privado constitui um obstáculo real ao posicionamento de Portugal como economia verdadeiramente inovadora, limitando a capacidade de empresas nacionais competirem em mercados globais de alto valor acrescentado. A questão central é compreender as razões por trás desta relutância corporativa em alocar recursos maiores para investigação e desenvolvimento.

A estrutura económica portuguesa oferece uma explicação parcial para este fenómeno. O tecido empresarial nacional é maioritariamente constituído por pequenas e médias empresas, frequentemente com margens de lucro mais reduzidas e menor capacidade de investimento em atividades de longo prazo como a inovação. Contrariamente aos grandes grupos multinacionais estabelecidos em países como Alemanha ou Suécia, muitas das nossas empresas enfrentam constrangimentos financeiros que as impedem de alocar recursos significativos a departamentos de investigação e desenvolvimento. Além disso, existe uma perceção, nem sempre infundada, de que os retornos do investimento em inovação são incertos e prolongados, algo problemático para empresas que operam com cash flows limitados e pressões de curto prazo.

O contexto dos mercados lusófonos torna este problema ainda mais relevante. Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique, como economias em desenvolvimento ou desenvolvimento intermédio, enfrentam desafios ainda mais significativos em matéria de capacidade de inovação empresarial. O efeito demonstração português, como economia mais desenvolvida da CPLP, deveria funcionar como catalisador de boas práticas. Contudo, se Portugal continua a apresentar uma capacidade de inovação corporativa limitada, a possibilidade de transferência de conhecimentos e modelos de negócio inovadores para estes mercados fica igualmente comprometida. A verdade é que a economia portuguesa poderia ser um hub de inovação para os PALOP, mas apenas se conseguisse resolver internamente esta lacuna de investimento privado.

As recomendações europeias incidem precisamente nesta direção: é necessário criar incentivos mais robustos para que as empresas portuguesas, especialmente as pequenas e médias, aumentem significativamente a sua despesa em atividades de inovação. Isto passa por mecanismos de financiamento adaptados ao risco e à dimensão das empresas, parcerias público-privadas mais eficazes que facilitem a comercialização de resultados de investigação, e políticas de capital de risco que apoiem empresas em fase de crescimento com produtos ou serviços inovadores. Portugal tem demonstrado capacidade de mobilizar fundos estruturais europeus de forma relativamente eficiente em anos anteriores. A questão agora é se conseguirá converter esta experiência em modelos de financiamento privado mais robustos e sustentáveis.

O reconhecimento europeu quanto ao esforço público português não é, portanto, uma congratulação sem consequências. É um aviso de que o caminho está bem identificado, mas que falta percorrer uma distância significativa. As universidades, os centros de investigação e os organismos de apoio públicos estão a fazer o seu trabalho. Estão a produzir conhecimento, a formar investigadores qualificados e a criar oportunidades de transferência tecnológica. O que falta é encontrar a forma de traduzir este esforço em inovação comercial e competitividade empresarial elevada. Este é o verdadeiro teste de um sistema de inovação funcional: não apenas produzir investigação, mas transformá-la em produtos e serviços que as empresas conseguem levar aos mercados.

Para a ClickNews, este relatório europeu constitui um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Portugal tem a oportunidade de consolidar a sua posição como economia inovadora, mas apenas se conseguir resolver a equação do investimento privado em inovação. A dimensão reduzida do tecido empresarial não é desculpa permanente; deve ser encarada como desafio a superar através de políticas criativas, incentivos direcionados e uma mudança de mentalidade no setor privado. O investimento em inovação não é um luxo, é uma necessidade competitiva num mundo globalizado. Para Portugal e para os países da lusofonia que olham para nós, a resposta a este desafio determinará em larga medida a trajetória económica das próximas duas décadas.
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Nalina Seidi

Autor do Artigo

Jornalista

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