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Diáspora africana reúne investigadores em Cabo Verde
Cultura

Diáspora africana reúne investigadores em Cabo Verde

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Redação ClickNews
· 20 de June de 2026 · 4 min de leitura · 4 visualizações

Encontro internacional em Praia discute identidade cultural e legado da escravatura, com participação de académicos de instituições brasileiras e africanas.

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Cabo Verde acolheu esta semana um encontro internacional dedicado à diáspora africana e ao património cultural das comunidades negras, reunindo investigadores, académicos e especialistas de várias instituições de ensino superior. O evento, realizado na capital Praia, funcionou como plataforma de diálogo entre Brasil, países lusófonos e continente africano, abordando questões historiográficas, identitárias e de justiça reparativa que permanecem centrais nas sociedades contemporâneas.

A participação de académicos brasileiros, nomeadamente de universidades federais como a Universidade Federal da Bahia, reforçou a importância de Cabo Verde como espaço de encontro intelectual e de construção de narrativas partilhadas sobre o passado comum. O arquipélago, como histórico ponto de trânsito no comércio triangular e centro de poder colonial português, assume particular relevância nestes debates, oferecendo uma perspetiva única sobre as complexidades da escravatura e as suas cicatrizes transgeracionais.

A conferência evidenciou como as instituições brasileiras, especialmente aquelas ligadas ao estudo das culturas e identidades afro-brasileiras, mantêm diálogo constante com investigadores africanos e portugueses. Esta colaboração académica internacional representa um reconhecimento crescente de que a compreensão da diáspora africana exige abordagens multidisciplinares e multissituadas, que ultrapassem as perspetivas exclusivamente nacionais. Os trabalhos apresentados durante o encontro cobriram temáticas como a preservação do património imaterial, o papel das comunidades negras na formação social contemporânea, e as políticas públicas de igualdade e reconhecimento.

Para Portugal e para os países africanos de língua portuguesa, estes encontros ganham especial significado. Enquanto Portugal permanece confrontado com a necessidade de aprofundar o conhecimento crítico sobre o seu passado colonial, nações como Cabo Verde, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau reafirmam as suas próprias narrativas históricas e identitárias, frequentemente silenciadas nas historiografias tradicionais. A participação de académicos de diferentes pontos da lusofonia nestes fóruns contribui para a construção de uma memória colectiva mais inclusiva e historicamente rigorosa.

O diálogo entre Brasil e Cabo Verde, em particular, ilustra como a diáspora africana criou conexões culturais duradouras que transcendem as fronteiras nacionais e os séculos. As comunidades afro-brasileiras, maioritárias no Brasil, mantêm vínculos profundos com as tradições, linguagens e formas de organização social originária do continente africano. Simultaneamente, Cabo Verde, com a sua população predominantemente de origem africana mas marcada por séculos de contacto com culturas ibéricas, representa um caso único de síntese e transformação cultural.

Estes encontros académicos também funcionam como espaços de avaliação crítica das políticas públicas de reconhecimento e reparação histórica implementadas em diferentes contextos nacionais. O Brasil tem desenvolvido políticas de ações afirmativas e de reconhecimento das contribuições das populações negras na construção do estado-nação, ainda que com progressos desiguais e resistências significativas. Portugal, por sua vez, tem enfrentado críticas por uma relativa lentidão em institucionalizar políticas semelhantes e em integrar a história colonial nas narrativas nacionais de forma equilibrada e crítica.

Para a ClickNews, estes fóruns internacionais representam sinais positivos de amadurecimento intelectual nos espaços lusófonos. A crescente colaboração entre académicos do Brasil, de Portugal e dos países africanos de língua portuguesa demonstra que é possível construir diálogos genuínos sobre memória, identidade e justiça histórica, sem romantismos nem esquecimentos. Contudo, permanece essencial que estes conhecimentos produzidos em contextos académicos se traduzam em políticas públicas efetivas, na reescrita dos currículos escolares e na transformação das práticas institucionais que ainda refletem lógicas coloniais. A lusofonia, neste sentido, tem a responsabilidade histórica de liderar processos de descolonização intelectual e epistémica que beneficiem todas as suas populações.
Redação ClickNews

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